O cenário de ameaças digitais continua evoluindo rapidamente, e o recente comportamento do grupo Qilin reforça como os ataques estão se tornando cada vez mais silenciosos e sofisticados. O uso de logs nativos do Windows para reconhecimento interno marca uma mudança estratégica relevante no modo como operadores de ransomware conduzem suas campanhas.
Neste artigo, você vai entender como o ransomware Qilin está explorando logs de autenticação RDP, por que essa técnica é perigosa e quais medidas podem fortalecer a segurança da informação na sua organização.
O que é o ransomware Qilin e por que ele preocupa?
O grupo conhecido como Qilin, também chamado de Agenda, já vinha sendo monitorado por suas operações de ransomware direcionadas. No entanto, a nova abordagem adotada demonstra um nível maior de discrição e inteligência operacional.
Diferente de ataques tradicionais, que utilizam ferramentas barulhentas de varredura de rede, o ransomware Qilin agora aposta em métodos mais sutis para identificar alvos dentro de ambientes comprometidos.
Essa mudança reduz significativamente as chances de detecção precoce, aumentando o risco para empresas que não possuem uma estratégia robusta de segurança da informação.
Como funciona a nova técnica de reconhecimento
Uso de logs do Windows como fonte de inteligência
Ao invés de escanear a rede ou consultar diretamente o Active Directory, os operadores do ransomware Qilin passaram a explorar os próprios logs do sistema operacional Windows.
Mais especificamente, eles acessam registros relacionados ao protocolo RDP (Remote Desktop Protocol), que armazena informações valiosas sobre conexões remotas realizadas no ambiente.
Extração de dados via PowerShell
Os atacantes executam comandos em PowerShell para coletar informações do seguinte log:
- Microsoft-Windows-TerminalServices-RemoteConnectionManager/Operational
- Event ID: 1149
Esse evento registra tentativas bem-sucedidas de autenticação via RDP, incluindo:
- Usuários que acessaram o sistema
- Origem das conexões
- Máquinas utilizadas
Com isso, o ransomware Qilin consegue mapear rapidamente quais contas possuem maior relevância e quais sistemas podem ser mais valiosos para o ataque.
Por que essa abordagem é tão perigosa?
Reconhecimento silencioso
Uma das principais vantagens dessa técnica é o baixo nível de ruído gerado. Diferente de ferramentas tradicionais de enumeração, que costumam disparar alertas em soluções de monitoramento, a análise de logs internos passa despercebida na maioria dos casos.
Isso significa que o ransomware Qilin pode operar dentro da rede por horas — ou até dias — sem ser detectado.
Falta de monitoramento adequado
Muitas organizações ainda negligenciam logs considerados “menos críticos”, como o Event ID 1149. Em diversos casos:
- Esses logs não são enviados para o SIEM
- Não há correlação de eventos
- A análise é superficial ou inexistente
Essa lacuna na segurança da informação cria uma janela ideal para que invasores realizem reconhecimento avançado antes da fase de criptografia.
Vetor de entrada: como o ataque começa?
Instalação maliciosa de ferramentas legítimas
De acordo com a análise, a atividade do ransomware Qilin teria sido iniciada por meio da instalação comprometida do ScreenConnect, uma ferramenta legítima de acesso remoto.
Esse tipo de abordagem é conhecido como “living off the land”, onde os atacantes utilizam softwares confiáveis para evitar suspeitas.
Além do ScreenConnect, outras ferramentas frequentemente exploradas incluem:
- AnyDesk
- Atera
Esses aplicativos, quando utilizados sem controle adequado, podem se tornar portas de entrada críticas.
Impactos para empresas e ambientes corporativos
Aceleração do ataque
Ao utilizar logs existentes, o ransomware Qilin reduz drasticamente o tempo necessário para identificar alvos estratégicos. Isso acelera toda a cadeia do ataque, desde o reconhecimento até a execução da criptografia.
Aumento da eficácia
Com informações mais precisas, os invasores conseguem:
- Priorizar contas com privilégios elevados
- Identificar servidores críticos
- Evitar sistemas menos relevantes
Isso torna o ataque mais eficiente e potencialmente mais devastador.
Como fortalecer a defesa contra o ransomware Qilin

A boa notícia é que existem medidas práticas que podem reduzir significativamente o risco.
Habilite o PowerShell ScriptBlock Logging
Esse recurso permite registrar comandos executados em PowerShell, ajudando a identificar atividades suspeitas.
Sem esse nível de visibilidade, ações maliciosas podem passar completamente despercebidas.
Monitore logs de RDP com atenção
É fundamental tratar o Event ID 1149 como um indicador relevante dentro da estratégia de segurança da informação.
Boas práticas incluem:
- Enviar logs para um SIEM
- Criar alertas para padrões incomuns
- Correlacionar acessos com comportamento de usuários
Controle rigoroso de ferramentas de acesso remoto
Ações recomendadas:
- Bloquear instalações não autorizadas
- Monitorar uso de ferramentas como ScreenConnect, AnyDesk e Atera
- Implementar listas de अनुमति (whitelisting)
Proteja o Microsoft Defender
O ransomware Qilin também pode tentar desativar ou adulterar soluções de segurança.
Fique atento a:
- Alterações inesperadas em configurações
- Desativação de proteção em tempo real
- Exclusões suspeitas de arquivos
Indicadores de comprometimento: sinais de alerta
Detectar o ataque antes da criptografia é essencial. Alguns sinais que podem indicar a presença do ransomware Qilin incluem:
- Execução incomum de comandos PowerShell
- Consultas frequentes ao Event ID 1149
- Instalação não autorizada de ferramentas remotas
- Alterações em políticas de segurança
Esses indícios podem surgir horas antes da fase crítica do ataque, oferecendo uma janela valiosa para resposta.
A importância da segurança da informação nesse cenário
A evolução das ameaças deixa claro que a segurança da informação precisa ir além de soluções tradicionais.
Não basta apenas bloquear ataques conhecidos — é necessário:
- Monitorar comportamento
- Analisar contexto
- Detectar anomalias
O caso do ransomware Qilin mostra que até dados internos, como logs de sistema, podem ser usados contra a própria organização.
Conclusão
O uso de logs do Windows como ferramenta de reconhecimento marca uma nova fase nas operações do ransomware Qilin. Essa abordagem silenciosa, eficiente e difícil de detectar reforça a necessidade de uma postura mais proativa em relação à segurança da informação.
Empresas que ainda não tratam logs como ativos críticos precisam rever suas estratégias com urgência. A visibilidade sobre o ambiente pode ser a diferença entre conter um ataque a tempo ou enfrentar um incidente de grandes proporções.




